sábado

LER - Lendo Escutando e Recontando - Parte III - Escutar



Na primeira parte falei sobre a minha concepção pessoal de ler, na segunda parte falei exclusivamente sobre o ato de ler e hoje falarei sobre a arte de escutar.

"Falar é uma necessidade, escutar é uma arte." Johann Goethe

Você está ouvindo, mas está realmente escutando? Apesar de serem sinônimos, há uma grande diferença entre ouvir e escutar. Quando ouvimos algo, mas estamos dispersos, não retemos a informação e se alguém nos pergunta o que acabamos de ouvir, não sabemos dizer com exatidão. Ao contrário, quando estamos atentos, prestamos atenção nos mínimos detalhes e podemos, dependendo do grau de atenção, dizermos com exatidão pequenas coisas que passaram despercebidas aos outros.
Ou seja, escutar é o ato de ouvir com atenção, ou melhor, é a habilidade de ouvir com atenção e, como qualquer habilidade, pode ser treinada. Podemos e devemos aprender a usar essa habilidade tão essencial em nossas vidas. Escutar vai além de usar apenas a audição, usamos todos os sentidos para ouvirmos melhor e termos uma compreensão completa do que está acontecendo à nossa volta. Já fazemos isso diariamente, mas alguns não se dão conta do quanto são bons em escutar.

Quando sente o cheiro do café fresquinho, acabando de ser coado, você ouviu seu olfato dizer que ele já está pronto para ser tomado.
Quando você está parado e alguém o cutuca com o dedo no ombro e você vira para o lado, você ouviu seu tato dizendo que está sendo chamado.
Quando você prova algum alimento e cospe-o na mesma hora ao sentir um sabor desagradável, você ouviu seu paladar dizendo não coma isso, cuidado.
Quando você vai falar com alguém e se detém, porque vê que ele está com o semblante severo, fechado, você ouviu sua visão lhe dizer que ele não quer ser incomodado.
Está vendo como, na verdade, já sabemos escutar? Basta que fiquemos atentos e usemos essa habilidade a nosso favor.

No caso do escritor, poderia dizer que ele consegue usar essa habilidade melhor, justamente por aprimorá-la a cada dia. Você pode notar em seus textos, independente do tipo, que ele é mestre em escutar. Ele ouve o canto dos pássaros, a voz das cachoeiras, o silêncio gostoso depois da chuva e os protestos dessa mesma natureza que teimamos em destruir. O choro mudo do povo diante das mentiras dos governantes e dos absurdos dos nossos semelhantes. Ele escuta, eu, você e seu próprio ser e então passa para o papel o que a sua visão interior vê.

O escritor domina a arte de escutar com o coração e a alma!

Mas não pense que é um privilégio dele, pois qualquer um pode aprimorar o seu escutar, assim como ele fez, e qualquer um pode ser um escritor, afinal, todos os dias escrevemos uma nova página no livro da nossa vida.

“Escutar é um raro acontecimento entre seres humanos. Você não pode ouvir a palavra sendo dita por alguém que esteja falando, se estiver preocupado com a sua aparência, em impressionar o outro ou tentando resolver o que vai dizer quando o outro parar de falar, ou mesmo questionando se o que está sendo dito é verdade, relevante ou agradável. Essas questões têm o seu lugar, mas só depois de escutar a palavra como está sendo expressa. Escutar é um ato primitivo de amor, em que a pessoa se dá à palavra de outro, tornando-se acessível e vulnerável àquela palavra.”


William Stringfellow

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